0 a 3 anos: o cuidar e o educar se dão através do brincar


"O Currículo da Educação Infantil é concebido como um conjunto de práticas que buscam articular as experiências e os saberes das crianças com os conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural, artístico, científico e tecnológico. Tais práticas são efetivadas por meio de relações sociais que as crianças desde bem pequenas estabelecem com os professores e as outras crianças e afetam a construção de suas identidades." (Parecer CNE/CEB no 20/2009)

Os bebês e as crianças pequenas vivem um constante movimento: se constituem ao serem constituídos pelos outros que deles cuidam.

E como isso se dá? Desde que nascem, nós, adultos com eles falamos, gesticulamos, expressamos nosso amor, nossos receios, nossa admiração, nossas dúvidas através de nossos olhares, caras e bocas; tocamos, carregamos, nos preocupamos, ninamos... Enfim, conversamos com os bebês e com as crianças pequenas através de múltiplas linguagens: olhar, gesto, toque, fala, ação.

Qual a diferença entre ficar em casa ou frequentar um berçário?

Num espaço coletivo, muitas pessoas se ocupam das mesmas crianças, o que propicia o estabelecimento de diferentes interações, tanto entre adultos e crianças, como entre as próprias crianças. As berçaristas e os professores de fato falam com elas, não apenas para elas. Estão com elas, não apenas para elas. Olham em sua direção, “cobram” atitudes, respostas, olhares e expressões que respondam às suas indagações.

É dessa maneira que os bebês e as crianças pequenas se apropriam da “humanidade” que os envolve, mas não nasce automaticamente com elas. Para se apropriar da humanidade ainda externa, a criança precisa da mediação do outro. Muitos “outros” criam mais possibilidades de relações e maior diversidade de reações.

Enquanto as crianças se constituem através do seu crescente saber, também nós, educadores de crianças pequenas, vamos aprendendo a reconhecer o que esses singulares indivíduos comunicam através de seu corpo, sons e ações. Eles se manifestam através dos olhares, sorrisos, choros e movimentos que expressam angústia, paz, satisfação, medo, dor, entre outros. Essas primeiras manifestações e a forma como são acolhidas por quem do bebê cuida, familiares e profissionais, vão marcá-lo de maneira que mais tarde serão incorporadas à sua vida, ajudando a constituir os sentimentos de afeto, confiança, rejeição etc.

Os significados que damos a cada uma dessas manifestações vão permanecendo em seu corpo e em sua mente e certamente influenciarão na maneira como virão a estabelecer  relações sociais. Portanto, um número maior de pessoas que convivem com o bebê amplia a possibilidade de dar sentido às linguagens que a criança expressa, respondendo de diferentes maneiras aos seus desejos, gostos, aflições, sempre com afeto, seriedade e acolhimento.

Os bebês crescem rapidamente e em apenas um ano de vida vivem uma verdadeira revolução. Inicialmente deitados, depois sentados, se arrastando, engatinhando, levantando e andando, olham para o mundo por diferentes perspectivas. Conquistam uma independência que no berçário é olhada com muita seriedade. Quando estamos com as crianças, agimos de maneira a estimular o cuidado pessoal. Além de falarmos da criança e com a criança, adiantamos o que vai acontecer com ela, possibilitando que aprenda futuramente a cuidar de si para também cuidar do outro.Seu nariz está escorrendo, vamos pegar um papel para limpar? Você fez cocô? Segura a pomada, me ajuda a jogar a fralda no lixo.

A experiência de ser um entre os demais diferencia profundamente também a ação dos que cuidam dos bebês. Quando o bebê tem o mundo girando ao seu redor, fica difícil aprender a esperar, é pouco frequente o compartilhar, quase impossível se frustrar. Por tudo isso, consideramos que se tornar aluno muito cedo é um privilégio num mundo em que a família nuclear está, cada dia, mais reduzida. Costumávamos criar nossos bebês em famílias estendidas, com o olhar da mãe, mas também com experiência das avós, ciúmes dos irmãos, algazarra dos primos e acolhimento das tias e madrinhas.

De nossa parte, reconhecemos que brincando extrapolamos a nobre função de educar e cuidar de crianças pequenas.  Vivemos um imenso prazer de acompanhar a transformação que ocorre no primeiro ano de vida. Cada sorriso, cada gesto, cada abraço que recebemos dos bebês nos renovam e nos fazem acreditar que se preservarmos um tanto dessa pureza o mundo pode ser mais equilibrado, menos complicado.

Usando e abusando dos sentidos chegamos ao Integrado; o tempo e as crianças correm para seguir na sua escolaridade, imitando e reconhecendo-se nos companheiros que formam um grupo. Um grupo de idades próximas, mas não iguais, um grupo em que a convivência amplia a capacidade de estar num universo onde nenhum brinquedo é mais importante do que uma brincadeira, onde nenhum indivíduo é mais importante do que o grupo ao qual pertence.

Nessa fase, período que abrange crianças de 1 ano e meio a 3 anos, oferecemos a possibilidade de viverem na escola algumas “experiências do mundo”.

À medida que vão encontrando diferentes formas de comunicarem seus desejos, avançam na condição de esperar a vez, de aprender a ouvir e a falar, de exercitar a troca com o outro. Ao compartilhar experiências, realizam aprendizados, cuidam ou se deixam “cuidar” pelo par um pouco mais experiente, o que potencializa a capacidade e o prazer de dar e receber.

Muitas das atividades propostas aos grupos carregam consigo a possibilidade de ajudar, esperar, compartilhar os mesmos materiais e vivências. As atividades plásticas, as culinárias, que se encerram no comer em grupo e os lanches coletivos são exemplos práticos em que a ação de um interfere também na ação de outros.

A criança aprende por imitação e também aprende sendo “modelo” sobre como funciona o viver junto e, com isso, pouco a pouco, começa a aprender sobre ser “coletivo”.

Os desafios de deixar o espaço familiar (privado) para começar a viver representações da vida no espaço público tornam-se mais evidentes nessa fase.

Situações cotidianas, aparentemente simples, como precisar esperar a vez, ter que dividir um brinquedo, compartilhar um lanche, escutar uma história, conter um impulso em função de um combinado...são experiências que contribuem para que façam a transição do espaço coletivo para o espaço público; do desafio de viver junto para o viver com.

Essa é uma construção importante também para o adulto educador que precisa constantemente refletir sobre as escolhas e intervenções que contribuirão para essa construção.

Experiências relacionadas aos aspectos da cultura vigente revelam a intenção do educador em investir na construção dessa percepção: o que é viver no espaço público. 

A relação com a arte em suas diferentes linguagens também nos ilumina e orienta na possibilidade de construir um repertório de saberes que as crianças, pouco a pouco, vão exercitando nas situações reais.

A conquista da fala que acontece geralmente nessa fase e é um marco importante para avançarem na relação com o outro e com o mundo.

Aos poucos, à medida que vão crescendo e convivendo, adquirem novos recursos que contribuem para avançarem nessa condição de ser, de se relacionar e de pertencer.