FRALDAS SEM FRAUDES


Tem sido freqüente em nossa prática de trabalho um questionamento recorrente nesta época do ano. Os pais das crianças de 02 anos trazem as dúvidas e as ansiedades decorrentes do “desfraldamento”.

As crianças já adaptadas à vida escolar podem ser olhadas como indivíduos que superaram as dificuldades de adentrar um novo mundo – a escola – onde apesar de ainda receberem uma atenção individualizada já não são mais “reis do universo”.

Esta vivência aponta inúmeras outras possibilidades, e dentre elas o fato de já estarem caminhando para um maior controle de seu corpo. Estar maduro fisiologicamente é uma condição básica para essa maturação emocional.

Na criança, ou melhor, no ser humano, nada é dividido. Emoção e razão fazem parte de um mesmo pacote e nós as analisamos separadamente para entendermos melhor os processos pelos quais passamos.

Para a criança a razão para ficar seca pode não ser o desprazer em ficar suja ou molhada. Sabemos o quanto elas gostam do contato com a água, a areia, o barro e as massas em geral. Estes elementos representam, “de maneira civilizada”, o prazer que teriam em manipular o produto que seu próprio corpo produz.

A razão da criança está mais vinculada ao fato de querer agradar em primeiro lugar a seus pais, além dos professores, avós e outros adultos com os quais convive.

Cada sucesso inicial em expelir seus “produtos” no lugar adequado é visto como uma vitória e cada fracasso podem desestruturá-la. Ela sente-se inadequada, talvez com vergonha ou chateada por frustrar aqueles que ama. É esta a emoção que acompanha o processo.

E a emoção dos pais, como anda nesse período?

Se educar fosse mágico grande parte da culpa que sentimos seria atenuada. É comum acharmos que não desempenhamos bem o papel de pais, ou nos “comportamos” de maneira diferente daquela que idealizamos.

Assim é freqüente que os pais, mas principalmente as mães, que se ocupam com mais afinco deste pedaço, vivam períodos de grande ansiedade – períodos – no plural, pois a criança não conquista de uma só vez o patamar de “freqüentadora de banheiros”.

Ela regride e progride diversas vezes. Muitas e variadas são as causas, algumas “clássicas”: o nascimento de um bebê, a separação ou ausência dos pais, a perda de

uma babá, a entrada na escola, uma doença, enfim mudanças na rotina já estabelecida.

A reação dos familiares e adultos em geral, frente ao avanço ou recuo no processo também conta pontos.

De acordo com a psicanálise não é gratuita a nossa culpa ou preocupação já que dar os primeiros produtos implica também na forma como eles serão recebidos. “Pensando de uma maneira mais ampla seria projetar para uma aceitação e recepção que este indivíduo terá no mundo”. Rappaport, Clara Regina. Psicologia do desenvolvimento.

Será ele capaz de produzir boas coisas? Uma produção artística, uma invenção, conquistar um emprego, criar uma música?

Pois é, voltando para os dois anos...

A criança já conquistou a marcha e a fala, mas os primeiros produtos concretos por ela gerados são as fezes e a urina.

Expelir as fezes é fazer força para colocar algo para fora, dominar algo que tem que acontecer.

Reter a urina é manter o controle para que algo não aconteça.

Percebem como é difícil?

Na prática só fica seco quem pode sentir o molhado. Assim deixar escapar o xixi e ficar com a roupa molhada pode provocar resfriados, mas ajuda a criança a perceber o que acontece com o seu corpo.

Achar “feio” o que aconteceu não ajuda em nada. Levar a criança ao banheiro de meia em meia hora cria uma ansiedade exagerada e rouba da criança um tempo precioso de elaborar essa vivência de outros modos (jogando, manipulando materiais plásticos, etc).

Na escola temos a possibilidade de colocar o banheiro na rotina diária. A criança tem o modelo de outras que já passaram por esta fase.

O espaço da escola também é propício para ser “xixizado”; passa-se um pano e estamos prontos para outra. Professoras do maternal também estão preparadas para trocar a roupa muitas vezes e não são elas que fazem o serviço mais pesado: lavar, secar, passar, portanto não existe irritação nem temor que esta fase não se acabe.

Ajuda pensar que a criança pode, ao mesmo tempo, não querer molhar as calças e não querer ir ao banheiro, e encarar isto não como uma contradição, mas como um conflito que necessita da ajuda do outro para ser enfrentado.

Podemos analisar juntos a vivência que vocês tem com seu filho nos aspectos aqui abordados e tentarmos encontrar algum caminho possível de ser trilhado.

                                

Bibliografia

Aberastury Arminda. A criança e seus jogos, Editora Vozes, São Paulo.

Bettelheim, Bruno. Diálogos com as mães. Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro, 1977.

Rappaport, Clara Regina. Psicologia do desenvolvimento, Editora Pedagógica e Universitária, São Paulo,1981.